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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Cinismo e moral

Na peça Lady Windermere's Fan, de Oscar Wilde, há várias passagens interessantes sobre o cinismo, a hipocrisia e a moral. Entre todas, as mas emblemáticas estão no III Ato. Cecil Graham, um jovem pouco afeito aos modos, faz uma distinção entre a fofoca e o escândalo: "A fofoca é charme! A história é apenas fofoca. Mas o escândalo é a fofoca com as tintas do tédio dadas pela moral" (p. 46).
O que vem a seguir é uma pérola: "O homem que dá lição de moral é um hipócrita e a mulher que o faz é invariavelmente uma desqualificada". No avançar da conversa, ele pergunta para o Lorde Darlington: “O que é um cínico?”. Este então responde: “Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada.” (p. 68).
O cinismo, a nobreza e o segredo se cruzam no drama de Wilde e nos mesmos personagens: Lady Windermere, traída, sai de casa e, sem o marido (Lorde Windermere) saber, vai aos aposentos de Lorde Darlington, seu declarado amor. É, nesses aposentos, que os homens entram a travar o diálogo descrito acima, enquanto as mulheres se escondem.
Com a ajuda da suposta traidora, Mrs. Erlynne, Lady Windermere sai sem ser notada, na hora em que Erlynne se sacrifica, como se assumisse um furto (do presente dado pelo marido à Lady Windermere e esquecido sobre um móvel às vistas do homens, o leque, "fan") ou um caso com Darlington ou as duas coisas, ao se apresentar a eles. Tudo, para recompor o casamento dos Windermeres.
O numero de quês é proporcional às tendências dos seres humanos retratados na sátira que Wilde faz da sociedade vitoriana. Seremos todos cínicos? Seremos todos nobres? A natureza humana é um segredo.

A ética da amizade

Kant dizia que a amizade era o hobby principal, o néctar e a ambrosia dos retóricos moralistas. A idéia da amizade se basearia na ultrapassagem do amor próprio pelo generoso amor recíproco, em igual medida e necessidade. "O mais agradável da amizade é a sua disposição de boa vontade". Boa vontade que seria diferente do senso utilitarista e interesseiro, mesmo que manifestado por acaso. "Um amigo que paga as minhas contas ou que suporta as minhas perdas é meu benfeitor e com ele fico em débito. Eu me sinto envergonhado em sua presença e não poderei olhá-lo de frente. A verdadeira relação é desfeita e a amizade finda."
Ele distinguia a amizade da experiência, do gosto ou da companhia da verdadeira amizade, esta se nutriria do prazer da felicidade do outro; aquela, apenas de sua companhia, de sua presença. À verdadeira, chamava de "amizade de sentimento". Quem não tem esse tipo de amigo não tem dentro de si "um coração amigável". Por outro lado, não é possível sermos amigos verdadeiros de todo homem ou de toda mulher que aparecer em nossa frente, a menos que sejamos seres perfeitos: "quem é amigo de todos não é amigo de ninguém". (Other Selves: Philosophers and Friendship, p. 210-211, 213, 214, 215, 217).
Contra essa tese de Kant existe um provérbio árabe repetido em muitas portas: "conhece-se o verdadeiro amigo quando dele se precisa". Algo que já estava escrito em Aristóteles: "Os amigos são necessários tanto no sofrimento quanto na alegria" (Ética a Nicômaco, p. 67). É senso-comum assim se dizer, mas será que a realidade não se aproxima mais de kant? Quando viramos devedores nos sentimos diminuídos e a amizade se esvai?
Ou será que o amigo não se sentirá, de alguma forma, inconscientemente que seja, explorado, e se recolherá? Por outro lado, haverá, a não ser como idéia, o amigo verdadeiro kantiano? Como seres invejosos e competitivos conseguirão ser amigos assim em estado puro? Oscar Wilde era cético a respeito: "Qualquer pessoa pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é necessária uma natureza muito boa (...) para simpatizar com o seu sucesso." (The Soul of Man under Socialism. Forgotten Books, 2008 [1891], p. 37).
De toda sorte, lá está Bacon a dizer "optimi consiliarii mortui"[os melhores conselheiros estão mortos] (p. 200). Tudo palavras.