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domingo, 3 de abril de 2011

Ética no jornalismo

Para quem já teve experiência com alguns jornalistas, a frase de Janet Malcolm, escritora tcheca, radicada em Nova York, parece realista demais: o jornalista entrevista com certa condescendência e até simpatia, escrevendo a matéria depois como um juiz cruel.
O entrevistado regride a um estado de carência e de vitimização, confiando que sua história será contada do jeito mais favorável e até poético, sob a sedução de um profissional que mais se parece a mãe que tudo aceita e perdoa. Na hora de editar a matéria, entretanto, o lobo larga as vestes de cordeiro e edita a matéria como se fosse um pai onipresente e implacável. Nada passa, nada perdoa (The Journalist and the Murderer, p. 32).
A mesma Janet, em entrevista recente a um jornal brasileiro de grande circulação, reafirma a tese do livro escrito em 1990. Para ela, as perguntas dos jornalistas funcionam como se fossem inquisições maternas. Os entrevistados se sentem na obrigação de respondê-las. O jornalista seria uma espécie de analista. Com uma diferença essencial: não estaria lá para ajudar.
A objetividade é impossível nas relações humanas e até mesmo profissionais, por mais que os códigos de éticas imponham um comportamento o mais isento possível. Reduzir toda atividade jornalista a um jogo estratégico de enganações mútuas, do entrevistado e entrevistador, é um equívoco perigoso.
O entrevistado pode até valer-se da situação para vender a sua versão, mas o profissional da notícia não pode sucumbir ingenuamente à artimanha. Tampouco lhe cabe aproveitar-se da "regressão à infância" e da fragilidade da própria personalidade do estrategista, para obter o que quer. Os fins não justificam os meios. Aliás, em casos assim, a notícia não será mais do que outra versão sediciosa.
Ser jornalista é talvez mais difícil do que ser juiz. Ambos devem pautar-se pela imparcialidade e driblar a tendência manipuladora dos próprios valores e interesses. Ouso a duvidar que os estragos produzidos pela imprensa sejam até maiores.

domingo, 27 de junho de 2010

Publicidade médica: O que pode e o que não pode

NÃO É PERMITIDO NA PUBLICIDADE MÉDICA

  • Conceder entrevista para autopromoção
  • Fornecer endereço e telefone de consultório ou clínica para angariar clientela por meio da imprensa
  • Abordar assunto médico de modo sensacionalista
  • Fazer consulta pela internet, por telefone ou por outros instrumentos de mídia
  • Expor imagens de paciente para divulgar técnica, método ou resultado de tratamento
  • Oferecer serviços por meio de consórcios ou similares
  • Dar ao paciente cupons de desconto
  • Participar de anúncios comerciais

É PERMITIDO NA PUBLICIDADE MÉDICA

  • Anunciar serviços de maneira discreta, informando nome, especialidade e número de registro em CRM
  • Conceder entrevistas a veículo de comunicação para esclarecer a sociedade
  • Usar imagens de tratamento em eventos científicos, quando imprescindível, mediante autorização expressa do paciente
  • Receber títulos ou homenagens de entidades reconhecidas pela sociedade

Fontes: FSP, 27/6/2010, p. C5.

O que pode e o que não pode na publicidade médica

sábado, 26 de junho de 2010

Novo livro de Ronald Dworkin: Justiça para Ouriços

A academia está ouriçada à espera do novo livro de Dworkin, a ser publicado pela Belknap Press of Harvard University Press, em janeiro de 2011: Justice for Hedgehogs. No livro, Dworkin defende a unidade de valor contra a "várias causas folclóricas": o ceticismo, o valor do pluralismo de valores, os conflitos de valor, e, em particular, a suposta oposição entre os valores de auto-interesse e da moralidade pessoal e política. O filósofo defende a integração da ética (dos princípios que orientam os seres humanos como viver bem) e da moral (os princípios que os orientam como devem tratar as outras pessoas), e por uma moral de autoafirmação, contra uma moral de autoabnegação. Ou entre as condições indispensáveis de viver bem - dignidade, autorrespeito e da autenticidade - e os nossos deveres morais para com os outros. Ele também argumenta que o direito é um ramo da moralidade política que por sua vez é espécie da moralidade mais amplamente compreendida.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A ética da amizade

Kant dizia que a amizade era o hobby principal, o néctar e a ambrosia dos retóricos moralistas. A idéia da amizade se basearia na ultrapassagem do amor próprio pelo generoso amor recíproco, em igual medida e necessidade. "O mais agradável da amizade é a sua disposição de boa vontade". Boa vontade que seria diferente do senso utilitarista e interesseiro, mesmo que manifestado por acaso. "Um amigo que paga as minhas contas ou que suporta as minhas perdas é meu benfeitor e com ele fico em débito. Eu me sinto envergonhado em sua presença e não poderei olhá-lo de frente. A verdadeira relação é desfeita e a amizade finda."
Ele distinguia a amizade da experiência, do gosto ou da companhia da verdadeira amizade, esta se nutriria do prazer da felicidade do outro; aquela, apenas de sua companhia, de sua presença. À verdadeira, chamava de "amizade de sentimento". Quem não tem esse tipo de amigo não tem dentro de si "um coração amigável". Por outro lado, não é possível sermos amigos verdadeiros de todo homem ou de toda mulher que aparecer em nossa frente, a menos que sejamos seres perfeitos: "quem é amigo de todos não é amigo de ninguém". (Other Selves: Philosophers and Friendship, p. 210-211, 213, 214, 215, 217).
Contra essa tese de Kant existe um provérbio árabe repetido em muitas portas: "conhece-se o verdadeiro amigo quando dele se precisa". Algo que já estava escrito em Aristóteles: "Os amigos são necessários tanto no sofrimento quanto na alegria" (Ética a Nicômaco, p. 67). É senso-comum assim se dizer, mas será que a realidade não se aproxima mais de kant? Quando viramos devedores nos sentimos diminuídos e a amizade se esvai?
Ou será que o amigo não se sentirá, de alguma forma, inconscientemente que seja, explorado, e se recolherá? Por outro lado, haverá, a não ser como idéia, o amigo verdadeiro kantiano? Como seres invejosos e competitivos conseguirão ser amigos assim em estado puro? Oscar Wilde era cético a respeito: "Qualquer pessoa pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é necessária uma natureza muito boa (...) para simpatizar com o seu sucesso." (The Soul of Man under Socialism. Forgotten Books, 2008 [1891], p. 37).
De toda sorte, lá está Bacon a dizer "optimi consiliarii mortui"[os melhores conselheiros estão mortos] (p. 200). Tudo palavras.

domingo, 23 de agosto de 2009

A ética e as utopias

Muita gente já chamou o século XX, o século das utopias negativas. Fascismo, Comunismo e Nazismo não passaram de um sonho de uma sociedade ideal que acabaram em regimes totalitários, provocando dor e extermínio.
Em 1606, com 42 anos de idade, Shakespeare não precisava escrever mais nada, ele já tinha nos dado Hamlet, Rei Lear, Othelo, Macbeth e mais 26 peças teatrais. Cansado do mundo, resolveu criar um, onde sua imaginação poderia correr livre e sem peias. Escreve quatro peças, intituladas de Romances: Péricles, Conto de Inverno, Cimbelino e A Tempestade.
A que nos interessa aqui é a insólita A Tempestade, o mundo de Próspero, Duque de Milão banido do trono. Shakespeare com certeza leu A Utopia, de Thomas Morus, livro que serviu como fonte de inspiração para muitos proponentes de uma sociedade ideal. Séculos depois, Aldous Huxley escreveu sua utopia, Admirável Mundo Novo.
Esse título é uma frase de Miranda, a filha de Próspero. Bem, Próspero vive numa ilha onde controla tudo com seus poderes mágicos. Os habitantes são: ele mesmo, sua filha, o gênio alado Ariel e o bronco Caliban, servos que tudo fazem pra ele. Próspero é todo poderoso e nada foge a seu controle.
Lá todos os seus desejos são realizados. Já velho e precisando voltar pra casa, Próspero resolve trazer seus amigos e inimigos ao encontro dele. Daí, casa sua filha com um príncipe, liberta seus servos, faz as pazes com seus adversários, pune quem deve punir, enfim faz tudo que deseja fazer. Karl Marx adorava A Tempestade e tirou de lá a célebre frase: “tudo que é sólido se desmancha no ar”.
Cito A Tempestade por ser uma peça que trata de um reino utópico. Utopia é uma palavra bela e perigosa que está voltando à moda. Está surgindo como reação à brutal crise moral e ética por que passa o país nesse momento. Que não há justiça no Brasil, já sabemos! Ela alcança apenas os cidadãos desprovidos de poder político e econômico.
Uma perversa elite de menos de 0,1% da sociedade vive acima da lei, sem sofrer qualquer tipo de punição. A única pena é a conta do advogado. Portanto, dessa instituição, poder judiciário, não podemos esperar nada.
O nível de desmoralização que chegou o Senado do Brasil não tem paralelo em nenhum outro lugar do mundo civilizado. E pior, com a contribuição de Lula, o Presidente da República que, em nome da governabilidade não diz uma palavra de reprovação a essa gente, pelo contrário, as apóia.
O comportamento de alguém que se dizia portador de uma utopia está mergulhando o país num mar de imoralidade e frouxidão ética. Eis o perigo das chamadas utopias e seus utopistas, em sua maioria, puristas ou demagogos. Precisamos ter os pés no chão. Noções etéreas levam ao desconhecido.
Lembremo-nos da transformação das utopias em formas de governo a partir da segunda década do século XX e o horror que se seguiu dali. A reação à imoralidade deve apresentar outro estofo, não esse! Utopias, apenas em nossa imaginação, na arte ou na vida privada. Quem pretende implantar utopias que vá para a ilha de Próspero, saia do mundo, crie uma só pra si!
Postado por Theófilo Silva, Presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador da Rádio do Moreno.