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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Moral, Ciência e Superstição

Será que nosso julgamento moral é pura intuição? Filósofos como David Hume e Adams Smith achavam que a noção de certo e errado nascia de nossas emoções. Eram um contraponto aos racionalistas, de Platão a Kant, que a viam como uma operação racional. Certas razões abstratas eram capazes de fornecer a orientação e a motivação de nosso agir. Os racionalistas fizeram nossa cabeça, mas estão sendo desafiados pelos estudos da Psicologia Moral.
Sam Harris, autor de “The Moral Landscape”, afirma que o ensino da moral tem se baseado em critérios equivocados, para não dizer supersticiosos. Os moralistas vivem na era medieval ou, sendo mais benevolente, a moral é um ramo subdesenvolvido da ciência. Será mesmo que, seguindo Harris, o exame do DNA e das operações físico-químicas de nossas sinapses explicarão nosso comportamento moral?
Joshua Greene, autor de diversos artigos sobre o assunto, incluindo “Moral Judgment”, fica no meio do caminho. Ele defende uma teoria dual sobre os julgamentos morais, baseada tanto na intuição quanto na razão. A noção kantiana de “direitos” e “deveres” não são produto da razão, mas de nossas intuições ou de respostas emocionais.
A operação mental que nos faz seguir essa noção é, todavia, racional. Uma razão, diferentemente da tese kantiana, utilitária ou consequencialista, pois avaliamos o custo-benefício da conduta para nós, o que é melhor ou menos penoso. Há diversos experimentos (científicos) que tentam demonstrar o determinismo genético de nosso agir e o cálculo racional que fazemos para superá-lo.
Kenan Malik, autor de “The Meaning of Race”, é dos que defendem uma linha menos econômica do comportamento moral, inclusive contra o dualismo de Greene. Imaginemos, seguindo seu argumento, que no futuro os cientistas cheguem a demonstrar que as diferenças raciais são uma realidade biológica. Uma raça (ou um determinado padrão genotípico) seria cognitivamente inferior a outra. Seguindo-se a uma análise de custo-benefício, concluamos que o melhor resultado para a humanidade seja submeter as “raças inferiores” ao jugo das raças ou padrões genotípicos mais inteligentes. Será que o julgamento moral aceitará essas conclusões?
Chegamos num nível de argumentação moral (talvez, como diz Harris, por superstição) de que todos os seres humanos são agentes morais autônomos, merecedores de igual respeito e consideração. Vivemos imersos numa rede de direitos e obrigações recíprocos, criada por nossa capacidade de diálogo racional. E por que somos agentes morais autônomos? Porque, mesmo sem conhecermos os meandros de nossa físico-química mental, somos capazes de distinguir entre o certo e o errado, assumindo responsabilidade e atribuindo culpas.
Há algo além da físico-química e do cálculo utilitarista. Talvez seja um resíduo teológico. Talvez superstição. Espero que sem cláusula de retorno ou retrocesso

domingo, 27 de junho de 2010

Pensamentos obtusos: Remédio para a aflição

Se estás aflito por alguma coisa externa, não é ela que te perturba, mas o juízo que dela fazes. E está em teu poder dissipar esse juízo. Mas se a dor provém da tua disposição interior, quem te impede de a corrigir? E se sofres particularmente por não estares a fazer algo que te parece certo, por que não ages, em vez de te lamentares? Um obstáculo insuperável te o impede? Não te aflijas, então, pois a causa de não o estares a fazer não depende de ti. Não vale a pena viver se não o puderes fazer? Parte, então, desta vida satisfeito, como partirias se tivesses logrado êxito no que pretendias fazer, mas sem cólera contra o que se te opôs. (Marco Aurélio. A Fortaleza Interior)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Cinismo e moral

Na peça Lady Windermere's Fan, de Oscar Wilde, há várias passagens interessantes sobre o cinismo, a hipocrisia e a moral. Entre todas, as mas emblemáticas estão no III Ato. Cecil Graham, um jovem pouco afeito aos modos, faz uma distinção entre a fofoca e o escândalo: "A fofoca é charme! A história é apenas fofoca. Mas o escândalo é a fofoca com as tintas do tédio dadas pela moral" (p. 46).
O que vem a seguir é uma pérola: "O homem que dá lição de moral é um hipócrita e a mulher que o faz é invariavelmente uma desqualificada". No avançar da conversa, ele pergunta para o Lorde Darlington: “O que é um cínico?”. Este então responde: “Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada.” (p. 68).
O cinismo, a nobreza e o segredo se cruzam no drama de Wilde e nos mesmos personagens: Lady Windermere, traída, sai de casa e, sem o marido (Lorde Windermere) saber, vai aos aposentos de Lorde Darlington, seu declarado amor. É, nesses aposentos, que os homens entram a travar o diálogo descrito acima, enquanto as mulheres se escondem.
Com a ajuda da suposta traidora, Mrs. Erlynne, Lady Windermere sai sem ser notada, na hora em que Erlynne se sacrifica, como se assumisse um furto (do presente dado pelo marido à Lady Windermere e esquecido sobre um móvel às vistas do homens, o leque, "fan") ou um caso com Darlington ou as duas coisas, ao se apresentar a eles. Tudo, para recompor o casamento dos Windermeres.
O numero de quês é proporcional às tendências dos seres humanos retratados na sátira que Wilde faz da sociedade vitoriana. Seremos todos cínicos? Seremos todos nobres? A natureza humana é um segredo.