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domingo, 25 de outubro de 2009

Sobre Nerds, Mulheres e Sexo

Uma pesquisa recente confirma algo que os nerds só começam a entender com o passar do tempo (se entenderem). Quase sempre mofinos, raquíticos e feios, na escola, são rejeitados. Crescem e ganham dinheiro, alguma segurança e as mulheres que os enjeitaram na escola. Ou suas equivalentes remoçadas.
A atração sexual, pelo menos o impulso e aquela da adolescência docemente inconsequente (quase pleonasmo), é determinada por um padrão de comportamento adquirido, darwiniano, portanto. Os hormônios, expressão desse processo, dominam suas regras.
Quando as mulheres estão ovulando (será que as adolescentes estão sempre?), tendem a preferir as figuras masculinas que estão no arquétipo social dos machões, fortes e encrenqueiros, nada familiares. Tudo que indique, inconscientemente, vida saudável e genes capazes de vencer a luta pela sobrevivência. Querem a proteção da força e da genética.
No período que não se encontram a descarregar seus óvulos, esse ímpeto diminui e até muda de orientação. Tendem a ver a beleza escondida por detrás de óculos e dos ossos. A alma e o caráter, a inteligência e o conhecimento parecem indicar para esse cérebro bioquímico que seus titulares serão bons pais às crias que elas gerarem. Preferem então a proteção do carinho e da segurança.
Esse traço talvez explique a tormentoso conflito ancestral dos homens de que "a maternidade é certa, enquanto a paternidade é presunção". Ou na pilhéria desconsertante: "pai é quem cria ou registra". A dúvida gerou a divisão sexual do trabalho com mecanismos de controle da sexualidade feminina.
Entre outras razões, nobres ou de pura segurança da família e dos patrimônios, justificam os incisos I e II do artigo 1.597 do Código Civil brasileiro. E que tem reproduções na maioria dos sistemas jurídicos. Foi a forma achada pelos homens para compensar a submissão da mulher a seus instintos.
A ciência pode mudar esse quadro. Pelos menos em parte. A filandesa Virpi Lummaa e a francesa Alexandra Alvergne publicaram as conclusões de sua pesquisa no artigo "Does the contraceptive pill alter mate choice in humans?" [A pílula contraceptiva altera a escolha de parceiro nos humanos?], que confirmam as transformações dos nerds e podem diminuir as desconfianças masculinas.
As pílulas anticoncepcionais, como impedem a ovulação, fazem com que a alma seja mais apreciada pelas mulheres do que os músculos. Para ser mais exato, a pesquisa também revela que os homens são mais atraídos pelas mulheres no período ovulatório que em outros dias do mês.
Podemos buscar nessa atitude masculina o instinto Don Juan que, entre poesias e carinhos, visa realmente a espalhar seus genes nas fêmeas que se encontram no ponto certo para a reprodução.
A pílula, todavia, arrefece ou confunde seus ânimos. De duas uma. Passam a atirar para todos os lados ou monogamizam-se. As pesquisadoras não responderam ao dilema.
O estudo é interessante, mas é também reducionista. Será que as mulheres mudam efetivamente de companheiros com o passar dos dias do mês, como se fossem meros corpos biológicos? Achemos a pergunta reacionária, mas a cultura tem essa força de contenção.
Talvez as mulheres se sintam atraídas por outros parceiros ou parceiras, por determinismo biológico ou carências de afeto, mas há um padrão ético, resultante das leituras feitas da tensão psicológica e bioquímica pela cultura com todos os ingredientes de divisão do trabalho sexual, que as impedem de levar adiante o seu projeto. Pelas mesmas razões éticas e culturais, o casanovismo não é tão reprovado nos homens.
Como isso, entretanto, interfere no sequenciamento das operações hormonais ou é por elas moldado é algo ainda sem respostas convincentes para acalmar principalmente os ânimos masculinos. Eles sabem, alguns por experiência própria, que a pílula às vezes falha. As mulheres mais ainda. Entretanto, mais adaptadas, tocam as suas vidas.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pensamentos obtusos: O poder em Nietzche

O poder em Nietzsche admite, pelo menos, duas leituras. Uma tradicional (a do darwinismo social), outra heideggeriana ou construtiva. A primeira o identifica com a dominação da vontade alheia (princípio psicológico e humano) ou de todas as formas de existência (elemento evolutivo vital de Gaia Ciência, ou cosmológico - de todo universo físico no “eterno retorno”).
O poder seria, como princípio humano ou universal, o estímulo ou a energia propulsora do existir. Tão forte que levaria o indivíduo a colocar em risco a própria vida para obter mais poder. Logo, seria mais forte do que a vontade de (sobre)viver, defendida por Schopenhauer. A vontade de poder (Wille zur Macht) estaria por trás da piedade como da impiedade, do senhor e do servo, do ascético e espiritual como do vaidoso e materialista. Seria o impulso da vida individual e da vida coletiva:
"Mesmo num corpo em que os indivíduos se tratam como iguais [como numa aristocracia plena e ativa] (...) está presente a encarnação da vontade de poder, que haverá de crescer, de expandir-se, de atrair, de tornar-se predominante - não em função de ser moral ou imoral, mas porque é viver e porque a vida é simplesmente a vontade de poder." (Beyond Good and Evil. Trad. H. Simmem. Whitefish: Kessinger Pub., 200?, p. 117).
O impulso socializante seria, portanto, de domínio unilateral (o prazer é filho do poder - Léon Dumont) ou de ser dominado (o dominado acredita que domina o dominador) ou de condomínio, se houver equilíbrio de forças sociais: "Estas então conspirarão em conjunto pelo poder. E o processo [de expansão da vontade] continuará"(The Will to Power. Trad. W. Kaufmann; R. J. Hollingdale. London: Weidenfeld and Nicolson, 1968, 636).
O poder seria pai e herdeiro da violência, da força, da dominação. Para Nietzsche, não haveria uma justiça em si mesmo considerada assim como nenhuma injúria, exploração ou destruição poderia ser definida como intrinsecamente injusta, pela razão simples de que a própria vida atuaria, em suas funções básicas, recorrendo a tais "violências".
Mas essa observação não poderia induzir o pensamento de que tudo haveria de ser sempre assim. "Artificial e excepcionalmente", o processo poderia sofrer uma interrupção com vistas à criação de uma unidade de poder maior. É nesse ponto da discussão nietzscheana que surge uma "teoria do estado" como uma exceção ao curso da vida biológica:
"Uma ordem legal pensada como soberana e geral, não para ser o espaço de lutas entre complexos de poder, mas como instrumento de contra a luta mesma, segundo o cliché comunista de Dührig, onde toda vontade deve considerar toda outra vontade com igual, seria um princípio hostil à vida, um agente de dissolução e de destruição do homem, uma tentativa de assassinar o futuro do homem, um sinal de fraqueza, um secreto caminho para a insignificância". (On the Genealogy of Morality. Trad. Douglas Smith. Clarendon: Oxford University Press, 1996, p. 57).
Essa leitura que, curiosamente, baseia-se num evolucionismo alternativo ao de Darwin (do princípio de competição e sobrevevência adaptativa no âmbito celular de Wilhelm Roux; da perfeição de Karl Wilhelm von Nägeli, a defender que evolução se dá no sentido de obtenção da complexidade orgânica, e da insaciabilidade da vida de William Rolph, a exigir absorção do entorno e sua transformação evolutiva) tem servido de argumento a favor do darwinismo social e foi usado como justificativa da supremacia ariana pelos nazistas.
Um exemplo sempre lembrado é o de Alfred Baeumler, um dos maiores (senão o maior) ideólogo de Hitler, que, embora negasse encontrar uma teoria do estado nazi expressamente em Nietzsche, localizava em seu texto todos os fundamentos (até premonitórios, ele dizia) da superioridade alemã. Para a defesa dessa superioridade, a Alemanha não haveria de valer-se nem da concepção hegeliana de Estado como entidade moral, nem da visão tímida e católica de Bismarck:
"Diante de seus [de Nietzsche] olhos, impunha-se a tarefa de nossa raça: a de ser líder da Europa". A razão lhe parecia simples: "O que seria a Europa sem a Alemanha [especialmente a do Norte]? Uma colônia romana. [Logo], os alemães tinham que escolher entre existir como um poder antirromano da Europa ou não existir". O destino seria a grandeza da nação "sob o espírito de Nietzsche e da Grande Guerra." (Nietzsche, der Philosoph und Politiker. Leipzig: Reclam, 1931, p. 180, 181, 183).
Segundo Heidegger, entretanto, Nietzche não tinha em mente o estabelecimento de um poder político ou a força bruta de opressão de homens sobre outros homens, ao falar de "Wille zur Macht". Não se deveria confundir, portanto, poder com a disposição do corpo ou da mente alheia. Sua definição estaria longe do desejo de dominação ou da prevalência do mais forte. Seria antes a qualidade de domínio da própria paixão e da vontade pelo "espírito livre", mesmo contra os costumes, ou, em outras palavras, o autocontrole que possibilitaria a criação da arte e da filosofia, campos da férteis da felicidade.
Há a favor da interpretação de Heidegger algumas passagens interessantes de Nietzsche. Em Human, All Too Human (Trad. M. Faber. University of Nebraska Press, 1984), por exemplo, ele critica o darwinismo social e o valor da lei do mais forte:
"Todo progresso do todo deve ser precedido por uma enfraquecimento de partes. As formas mais fortes retêm o tipo, o mais fraco ajuda-os a evoluir [É precisamente a natureza mais fraca, como a mais delicada e livre, que faz possível o progresso]. Algo similar também ocorre com o indivíduo. Raramente se verifica uma degeneração, uma truncagem ou mesmo um vício ou uma perda moral ou física sem importar uma vantagem em algum lugar (...). O cego verá mais profundamente seu interior e certamente ouvirá melhor. Portanto, a famosa teoria de sobrevivência do mais adaptado não poder ser defendida como único ponto-de-vista que explique o fortalecimento de um homem ou de uma raça"(p. 138-139).