quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Humor, rumor e censura


A profissão de humorista é certamente uma das mais difíceis. Charges e piadas vivem no fio da navalha entre o grotesco e o artístico, o preconceito e a diversidade. Sem falar do mérito da profissão – ser engraçado (e ser entendido, o que nem sempre coincide).


Fazer humor é arte e é política. Uma charge bem sacada vale por mil palavras. Às vezes, basta um gesto para rirmos do patético e do extravagante de certas situações humanas. O humorista mais do que ninguém é capaz de transformar uma tragédia numa graça. O humor está nessa capacidade de surpreender e mesmo contrariar o senso comum.

Continue a ler aqui

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O poder do silêncio


In the End, we will remember not the words of our enemies, but the silence of our friends. (Martin Luther King, Jr.)





















O silêncio em direito, como na vida, pode ser um dom ou uma lástima. Certas declarações de vontade não se formam sem uma palavra exata, uma expressão precisa, “sim, aceito”.  Esse encontro de palavras que se reconhecem mutuamente como um acerto.

Como regra, do silêncio nada se constitui. A intenção há de ser manifestada, Nenhum crime se consuma sem o ato externo do dolo ou da culpa. Em que pese o alerta de Sófocles de que a falta de palavras reforça o argumento da acusação, ninguém pode ser obrigado a fazer prova contra si, nem a mudez do denunciado às interrogações do promotor ou do juiz pode ser usada como atestado de culpa.

O silêncio não significa indiferença, certo, pode ser uma lástima, pois o direito não socorre aos que dormem. Mas há os dorminhocos barulhentos e os quietos.  Se o barulho for o produto mais do dinheiro do que da voz sonâmbula, o direito, entortado, lhes acode e solta o braço dos mudos de destino. Sim, uma lástima. No direito, na vida.

Continue lendo aqui

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A perda de mandato dos condenados no Mensalão


Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Por mais que fira a lógica, vulgar ou refinada, cabe à Câmara dos Deputados decretar a perda do mandato de seus membros. Ora, você dirá, como pode um deputado cumprir com suas obrigações funcionais ou até mesmo estar presente às sessões, se estiver preso? 

Concordo que parece um contrassenso ou um privilégio. Mas há um custo a ser pago para manutenção da separação dos poderes e a engenharia constitucional. E para proteção “normativa” da soberania popular. 

O desejo de vingança ou de paga pelo malfeito deve seguir os ritos institucionalizados. A pena não pode ser aplicada pela fúria da horda, cujos exemplos históricos mostraram bem no que deram. Nem sempre o nosso senso comum de reprimenda é o melhor guia nas coisas públicas (e nas nossas comichões privadas). E tudo está, até agora, cumprindo as regras constitucionais. 

continue lendo aqui

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Essa tal pós-modernidade


“Sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero.” (Horácio)


Pós-modernidade é uma palavra difícil de soletrar, complicada de entender e mais terrível ainda de nela viver. Se reinam a dúvida e a insegurança em seu mundo, se os fundamentos do que é certo ou errado se embaralharam, se os sentimentos se tornaram confusos ou imprevisíveis, se o amor e o ódio viraram produtos de prateleiras online, assim como as receitas de felicidade, é provável que você esteja a respirar a atmosfera pós-moderna. Parabéns. Ou meus sinceros pêsames.

Continue a ler aqui

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A vindita humana e a vinheta genética


If you prick us do we not bleed? If you tickle us do we not laugh? If you poison us do we not die? And if you wrong us shall we not revenge? (Shakespeare. The Merchant of Venice)


É curiosa nossa reação diante da desgraça de um bandido, de um corrupto, de um pária. Nossa satisfação é às vezes tão explícita que nos pegamos sorrindo diante da cena ou da simples leitura do fato. Pode ser que o prazer decorra da restauração da justiça, do reparo do erro. Pode ser, no entanto, que ele se nutra do sentimento de vingança que trazemos guardado no lado mais cru e primitivo da alma.

Continue a ler aqui

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ausência e Aparência (ou a felicidade sem lembranças)


Que vivemos um tempo de aparência, não há dúvidas. E de sensação de ausência, que alguns traduzem como vazio existencial, também. Ausência de quê?. De algo que jamais tivemos e que, ainda assim, nos roubaram. Perdemos o sentido de um projeto histórico de emancipação e felicidade, e passamos a viver de uma imediatidade de estímulos e respostas, identificada erradamente desde os iluministas com o hedonismo. Tudo que não somos é hedonistas, não cultuamos o prazer como objetivo de vida nem a vida como meta do prazer. Cultivamos o sofrimento, a angústia que se expressa nessa falta e nessa instantaneidade dos sentidos que nos obrigam a parecer o que não somos, um projeto simulado para que uns jurados igualmente ocos, simulacros de pessoas que fingem o que (não) são, nos aceitem.
As relações pessoais estão dominadas por esse jogo de gato e rato. Escondemos uns dos outros o que não temos e, todavia, mostramos o que tampouco possuímos. O olhar – e principalmente a impressão dos outros – é uma tirania diária contra a qual não nos rebelamos, porque somos, nós próprios, tiranos dos demais. Somos os hipermodernos, como diz Gilles Lipovetsky, que substituíram as palavras pelo hipertexto, os vínculos pelo hiperlink, o afeto pelo hiperconsumo (e pelo desconsolo). Somos hiper-quase-tudo com pouco ou nada realmente a dar ou a receber.
Diferentemente do que pensa Lipovetsky, porém, não creio que se foi o tempo do teatro da ostentação social. Estou mais com Bauman, quando afirma, em “A Arte da Vida”, que continuamos a competir pela aparência e por uma efêmera superioridade estética. Em alguns de nós, a vitória sobre os nossos julgadores é a felicidade que nos basta e é dada pelo consumo e pela forma, socialmente reconhecidos como diferenciados e diferenciadores, pouco importando a sua produção ou o conteúdo.
O “socialmente”, aqui, está reduzido a um grupo que é também reconhecido, pelos réus ou autores (os polos se confundem), como sendo integrado por “distintos julgadores” - da aparência. Uma plateia seleta a um narciso complexado. Para outros de nós (o nós dos outros), entretanto, não se faz necessário que se passe fisicamente pelo julgamento dessa classe iluminada pela passarela invisível (e inexistente) da moda da existência. A imaginação já traz ao páreo a sociedade de consumidores. Nesses casos, basta que se compre. No ato de comprar, consuma-se o desfile e o esbanjamento. Mas também, esgota-se o prazer.
Esse quadro, do capitalismo das redes ou do hipercapital, nos mostra como zumbis de gente e deboches de agentes morais (aliás, o deboche do alheio é a forma preferida de esconder-nos das nossas próprias fraquezas). Economicamente, é ainda mais cruel, pois, como diz ainda Bauman, a felicidade do consumo leva à contradição sem saída “de uma sociedade que estabelece para todos os membros um padrão de felicidade que a maioria destes ‘todos’ é incapaz de alcançar” (p. 38). A maioria, não, ninguém. A menos que aceitemos como certa a felicidade do absurdo e da carência. A aparência e o vazio como a felicidade (impossível) de nossos dias.
PS - Ao reler o texto, dei-me conta de que a tentação desse prazer de fachada, desse desejo de poder sem poder e de imitar o inimitável, por mérito, ou o vulgar, por roteiro do que no fundo é supérfluo e pura despeita, não tem nada de novo. Freud, há muito, já dizia que “é difícil escapar à impressão de que em geral as pessoas usam medidas falsas, de que buscam poder, sucesso e riqueza para si mesmas e admiram aqueles que os têm, subestimando os autênticos valores da vida” (p. 1). Com um agravante hoje: quem os tem não os tem, se é que os tivera algum dia, os valores mais autênticos da vida. Sobram só o aparente e a ausência do que jamais tivemos e, para piorar, nos roubaram, vai ver que num shopping center entre mim e você. Estamos sós e competindo pelo prazer insensível de hedonistas de araque.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A miséria dos intelectuais

Os intelectuais, via de regra, são muito vaidosos e donos da verdade. Há muitas explicações para esse comportamento. Algumas claramente freudianas. Outras, nem tanto. Prefiro evitar comparações ou tomada de partido. Arrisco, porém, observar um fenômeno curioso que ocorre a um grande número deles: a sedução pelo poder ou, o que pode dar no mesmo, pelos poderosos, mesmo que alguns sejam por eles solenemente ignorados.


Platão foi quase em serviçal de Dionísio de Siracusa. Na condição de preceptor de seu filho, passou por poucas e boas. Maquiavel se esqueceu de seu projeto de um bom governo, para devotar carinho e O Príncipe à casa dos Médici. Grócio também trocou seu ideário republicano pelas cortes do absolutismo francês. Rousseau e seu desafeto Voltaire dependiam de favores da elite parisiense para frequentarem os salões e as festas. Claro que, vez ou outra, sobretudo Voltaire ironizava aqueles que o incluíam nas listas de convidados. Pobre compensação.


Hegel saudou efusivamente Napoleão, quando as tropas francesas invadiram a Prússia. Era sinal de manifestação do espírito absoluto ou de puro oportunismo? Há divergências, embora, por comodidade, prefira a primeira versão. Schmitt e Heidegger bajularam as autoridades nazistas. Não se limitaram a dar apenas apoio às ideias e ao projeto de poder. Sartre teria padecido do mesmo mal em relação a Mao e a Stalin. 

continue a ler aqui