Mostrando postagens com marcador Campanha eleitoral. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Campanha eleitoral. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Retratos de uma eleição inacabada

O dinheiro corrompe, a ganância, seu combustível essencial, corrompe muito mais. Os humanistas cívicos italianos do século XV temiam que os mecenas no poder corrompessem o projeto do bem-comum. Naquela época, porém, as vigorosas repúblicas de cidades como Florença e Milão eram governadas apenas pelas famílias tradicionais, não necessariamente as mais ricas. E muitos daqueles humanistas viam nelas, por crença ou conveniência, um celeiro da virtude republicana.
Falava-se em soberania popular, uma verdadeira revolução no pensamento monárquico e teológico reinante, mas povo era um conceito tão restrito, quanto o estatuto civil das mulheres. Até os novos ricos mercadores eram barrados.
O constitucionalismo nasceu, em parte, com essa inspiração. A república seria um processo eletivo do povo sábio, fonte de todo poder e do melhor governo. O dinheiro não haveria de corroer o interesse público, apenas pré-selecionaria os homens capazes de discernimento. Ricos, não precisariam fazer da política um meio de vida.
Foram mais de cem anos para se utilizar a palavra democracia como uma forma universal de soberania popular. Ricos e pobres poderiam votar e ser votados. Todos poderiam ser eleitos. O devido processo eleitoral se imunizaria das influências do poder econômico e político, sem o determinismo da herança ou da consanguinidade.
Mais de cem anos depois daqueles cem anos nos damos conta que as promessas foram quebradas. O dinheiro continua dando as cartas. Ser deputado custa dinheiro, ser senador mais ainda. Ser presidente, nem se fala. As campanhas dos congressistas, há pouco eleitos, receberam oficialmente mais de R$ 800 milhões. Uma pechincha. As empreiteiras ajudaram a eleger mais de 50% deles. Ao campeão dos votos mineiros ao Senado, foram pouco mais de R$ 5 milhões. A agroindústria doou só a Blairo Maggi cerca de R$ 2,1 milhões. Pura benemerência e espírito público.
A polêmica Lei da Ficha Limpa não impediu que, pelo menos 65 parlamentares que respondiam a ações no STF fossem eleitos. Jader Barbalho, como vimos, foi barrado por ela no Supremo. Mas esperam julgamento outros tantos como Paulo Maluf (PP-SP), Natan Donadon (PMDB-RO) e Pedro Henry (PP-MT). Compra de votos, fraudes em licitação e remessas de divisas para o exterior são alguns dos delitos mais comuns das condenações. Mas como cada caso é um caso, sabem-se lá quantos pularão a cerca judiciária.
A hereditariedade, enfim, permanece como fator decisivo dentro de nossa democracia. Muitos campeões de votos levam sobrenomes de tradição. Em Alagoas, o filho do senador Renan Calheiros, Renan Filho, recebeu mais de 140 mil votos e foi eleito deputado federal. Benedito de Lira (PP-AL) elegeu-se senador e fez de seu filho Arthur Lira (PP-AL) deputado federal. Ciro Nogueira (PP-PI) foi para o Senado e a sua mulher, Iracema Portela (PP-PI), para a Câmara de Deputados. Foi o que também fez Romero Jucá (PMDB-RR) e sua ex-mulher Teresa Jucá (PMDB-RR).
Vital Filho (PMDB-PB) e Wilson Santiago (PMDB-PB) seguiram quase o mesmo roteiro, ambos igualmente senadores. Vital ajudou a mãe, Nilda Gondim (PMDB-PB), e Wilson apoiou Wilsinho (PMDB-PB) à conquista de uma vaga na Câmara. Sem mandatos famosos também fizeram sua parte. José Dirceu (PT-SP) e Virgílio Guimarães (PT-MG) contribuiram para que os filhos Zeca Dirceu (PT-PR) e Gabriel Guimarães (PT-MG), respectivamente, fossem eleitos deputados federais. São alguns exemplos apenas.
E ainda há os donos da mídia, aqueles que dominam os meios de comunicação regionais e que são capazes de, em nome da liberdade de imprensa, exercer plenamente a sua liberdade de empresa eleitoral. Notícias filtradas, críticas recolhidas e uma opinião pública sob censura, resultando de tudo uma vontade política deformada. Mas isso discutiremos numa outra vez, num próximo capítulo. Fica, todavia, a chamada: a democracia é um processo, um aprendizado, uma promessa por cumprir-se.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Reflexões eleitorais sobre a soberania popular

O povo é sábio. Afirmação de caráter normativo ou contrafactual que nem sempre aparece confirmado na prática. Até por que a democracia é um processo de aprendizagem. Para aprendermos, temos de refletir sobre cada etapa. Pois é para esse fim que recolho algumas observações feitas pela imprensa sobre as últimas eleições.
I - Ficha Suja
Mais da metade dos 513 deputados federais conseguiram se reeleger no último dia 3 de outubro, mas parte deles responde a processos na Justiça por suspeita de corrupção passiva, formação de quadrilha e estelionato, entre outros crimes. Dos 275 parlamentares reeleitos, pelo menos 65 respondem a ações no STF (Supremo Tribunal Federal), aponta levantamento do site Congresso em Foco.
Desse grupo, os cinco mais votados são: Paulinho da Força (PDT-SP), com 267.208 votos, seguido de João Paulo Cunha (PT-SP), com 255.497 votos, Wladimir Costa (PMDB-PA), com 236.514 votos, Emanuel Fernandes (PSDB-SP), com 218.789 votos, e Valdemar Costa Neto (PR-SP), com 174.826 votos.
A lista não leva em conta os deputados barrados pela Lei da Ficha Limpa, como Paulo Maluf (PP-SP), Natan Donadon (PMDB-RO) e Pedro Henry (PP-MT). Os três dependem de decisão da Justiça para assumir o cargo. A nova lei impediu que políticos condenados por um órgão colegiado (mais de um juiz) disputem a eleição.
Lei na íntegra
II - Política em família
Entre os candidatos mais votados nas eleições para deputado federal, estão filhos, pais ou demais parentes de políticos tradicionais no país. A repórter Ana Raquel Macedo, jornalista da Rádio Câmara, ouviu especialistas em ciência política a respeito do fenômeno.
Ana Raquel Macedo: Alguns dos campeões de votos nestas eleições para a Câmara dos Deputados carregam o sobrenome de políticos com larga trajetória em seus estados ou em âmbito nacional. Os primeiros colocados em Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco e Sergipe usam o nome da família. Em Alagoas, o filho do senador Renan Calheiros, Renan Filho,do PMDB, chega ao primeiro mandato como deputado federal com mais de 140 mil votos. Em Sergipe, o filho do senador Antônio Carlos Valadares, Valadares Filho, do PSB, também foi o mais votado, conquistando a cadeira de federal pela segunda vez. Na Bahia, Antônio Carlos Magalhães Neto, do DEM, pela terceira vez, é o deputado mais votado em seu estado. Em Pernambuco, a campeã de votos é a deputada Ana Arraes, do PSB, filha do ex-governador Miguel Arraes e mãe do atual governador Eduardo Campos. No Ceará, Domingos Gomes de Aguiar, do PSB, foi o deputado federal mais votado. Aguiar é filho do atual presidente da Assembleia Legislativa do Ceará e vice-governador eleito, Domingos Filho, e da secretária de Turismo de Fortaleza e ex-prefeita de Tauá, Patrícia Aguiar. Professor da Universidade de Brasília, o cientista político Otaciano Nogueira destaca que não é de hoje que o sobrenome representa um capital político importante.
Otaciano Nogueira: Na política, um sobrenome bem conhecido e avaliado é o maior patrimônio que um candidato pode desejar. Se ele é filho de alguém que deu alguma grande contribuição, sempre será lembrado pelo que o pai fez. No Brasil, há uma série de famílias famosas que se prolongaram ao longo da política. Alguns exemplos do Império. O conselheiro Nabuco de Araújo foi deputado, senador, ministro, presidente do conselho de ministros, tudo que podia ser. E o filho, Joaquim Nabuco. Você não dissocia mais um do outro. E o filho se tornou tão importante quanto pai.
Ana Raquel Macedo: No Paraná, o filho do ex-ministro José Dirceu, Zeca Dirceu, obteve 108.886 votos. Prefeito de Cruzeiro do Oeste por duas vezes, Zeca Dirceu acredita que a maioria de seu eleitorado decorre da sua trajetória política na região.
Zeca Dirceu: Não posso deixar de dizer que o fato de eu ser filho de José Dirceu me traz uma série de credenciais e nos locais mais distantes, onde não era conhecido, acaba me trazendo uma parcela dos votos que eu tive. Mas é inegável que eu tenho história e que tenho votação que é minha, principalmente, aqui no noreste do Paraná, que é a região onde nasci e onde sempre vivi.
Ana Raquel Macedo: A deputada distrital e filha do ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, Jaqueline Roriz, se prepara para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, para a qual obteve 100.051 votos. Ela acredita que, se o político não tiver uma boa atuação, o nome da família não será suficiente para manter um mandato.
Jaqueline Roriz: O segundo mandato, ou reeleição ou subir um degrau nesse caminho, ele já faz parte de um processo de você como se comportou no primeiro mandato. Porque o eleitor está muito atento, muito politizado, ele não está aceitando qualquer coisa.
Ana Raquel Macedo: O peso de um nome não é levado em conta apenas na política. O professor Otaciano Nogueira lembra que empresários, por exemplo, também costumam seguir a carreira de seus ascendentes. De Brasília, Ana Raquel Macedo.
Alguns exemplos

Em família

» Benedito de Lira (PP-AL): elegeu-se senador e emplacou o filho
Arthur Lira (PP-AL) na Câmara
» Ciro Nogueira (PP-PI): elegeu-se senador e ajudou a mulher, Iracema Portela (PP-PI), a conquistar uma vaga na Câmara
» Kátia Abreu (DEM-TO): elegeu o filho Irajá Abreu (DEM-TO) deputado federal
» Renan Calheiros (PMDB-AL): renovou o mandato e elegeu Renan Filho (PMDB-AL)
» Romero Jucá (PMDB-RR): renovou o mandato no Senado e terá a companhia da ex-mulher Teresa Jucá (PMDB-RR) na Câmara
» Vital Filho (PMDB-PB): elegeu-se senador e contribuiu para a conquista de uma cadeira na Câmara para sua mãe, Nilda Gondim (PMDB-PB)
» Wilson Santiago (PMDB-PB): foi apontado como senador eleito pela Paraíba e ajudou Wilson Filho (PMDB-PB) a conseguir uma vaga na Câmara
» Félix Mendonça (DEM-BA): o deputado elegeu o filho Félix Jr. (PDT-BA)

» Geddel Vieira Lima (PMDB-BA): perdeu a disputa pelo governo da Bahia, mas ajudou a eleger o irmão Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) deputado federal
» Jerônimo Reis (DEM-SE): teve o mandato de deputado federal cassado, mas elegeu o filho Fábio Reis (PMDB-SE)
» José Dirceu (PT-SP): contribuiu para o filho Zeca Dirceu (PT-PR) se eleger deputado federal

» Nelson Trad (PMDB-MS): o deputado não quis tentar a reeleição, mas garantiu vaga para o filho Fábio Trad
(PMDB-MS) na Câmara

» Virgílio Guimarães (PT-MG): não teve sucesso na disputa ao Senado, mas ajudou o filho Gabriel Guimarães (PT-MG) a ir para a Câmara

Veja ainda:

Parentesco entre políticos é um marco na representação nordestina

A Política Real está atenta e apurou que 19,2% dos 151 deputados federais da bancada nordestina tem alguma relação de parentesco com seus principais apoiadores - seja na condição de sucessão política no cargo ou por conta de um projeto de poder.

III - Donos da mídia

Afiliadas da Globo, da Record, do SBT e da Band e uma série de pequenas rádios são de propriedade de 61 políticos eleitos no último dia 3/10/2010. O patrimônio declarado em empresas de rádio e TV é de cerca de R$ 15 milhões. Na campanha, esses meios de comunicação podem, em tese, ajudar a promover a imagem de seus sócios.

Levantamento da Folha com declarações de bens localizou 91 participações em rádio e TV. Entre elas, o senador José Agripino Maia (DEM-RN) e as famílias de Jader Barbalho (PMDB-PA), Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-MA). A lei permite que ocupantes de cargos no Executivo ou Legislativo sejam sócios de empresas de rádio e TV e proíbe que estejam à frente da gestão das emissoras, o que é pouco fiscalizado.

O maior patrimônio declarado é de Júlio Campos (DEM-MT), eleito deputado federal: uma rede de TV de R$ 2,9 milhões. A seguir, vêm os irmãos Roseana (DEM) e Zequinha Sarney (PV). Dos 61 eleitos, pelo menos dois deputados participam da Comissão de Comunicação da Câmara, que aprova as renovações de rádio e TV: Antônio Bulhões (PRB-SP) e Arolde Oliveira (DEM-RJ). Também fazem parte Jader Barbalho e Beto Mansur (PP-SP), que ainda dependem da decisão da Justiça sobre a Lei da Ficha Limpa para ter novos mandatos.

No Maranhão, as quatro maiores TVs estão nas mãos de políticos. A Globo local pertence à família Sarney. A família do senador Edson Lobão é ligada ao SBT. A Record é da família do deputado Roberto Rocha (PSDB), e a Band, ligada a Manuel Ribeiro (PTB), eleito deputado estadual. O ex-presidente do Senado Garibaldi Alves (PMDB) tem participação na rádio Cabugi do Seridó, no Rio Grande do Norte, ligada à família dele. No site da emissora, antes da eleição, havia notícias elogiosas a ele, que se reelegeu.

Para Celso Schröder, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o lado fiscalizador fica enfraquecido com a ligação com políticos. Leia na íntegra

sábado, 23 de outubro de 2010

Troca de acusações eleitorais entre líderes religiosos pela internet

Deu na FSP, 22/10/2010

A guerra eleitoral entre partidários de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) se estendeu aos templos evangélicos. Edir Macedo, da Igreja Universal, que apoia a petista, e Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, aliado do tucano, trocam farpas na internet em defesa dos seus candidatos.

O bispo Macedo atacou primeiro, questionando o interesse do pastor da Assembleia de Deus ao apoiar Serra. No último sábado, em seu blog, o líder da Universal pôs em dúvida os argumentos de Malafaia para trocar Marina Silva (PV), a quem anunciou apoio no início da campanha, pelo tucano.

"Para justificar que não apoiaria a candidata Dilma, acusou o PT de ser a favor do aborto e apoiar o casamento de homossexuais. Pronto, o caminho estava aberto para, sabe-se lá com que interesse, apoiar o candidato Serra", afirmou, lembrando ainda da acusação de que Mônica Serra, esposa do tucano, teria feito um aborto.

"O que fez o pastor Malafaia mudar de lado? Ele vai continuar apoiando o Serra?", questionou Macedo. No contra-ataque, Malafaia pôs anteontem em seu site o link para um vídeo em que classifica Macedo de "mentiroso" e diz que ele foi "comprado pelo governo".

"Sua emissora [TV Record] recebe milhões do governo, você foi comprado para defender a Dilma. Sua emissora é chapa branca", disse. "Você tem gasto bilhões, dízimo e ofertas do povo de Deus, que você tem injetado na televisão para promover prostituição, adultério, homossexualismo, sensualidade, assassinato e roubo. Sua TV é um lixo moral."

Malafaia já havia feito críticas à Record, mas seu grupo mantinha boas relações com a Universal. Nas eleições, apoiou o senador reeleito Marcelo Crivella (PRB), sobrinho de Edir Macedo. Eleito deputado estadual, Samuel Malafaia (PR-RJ), irmão e braço direito de Silas na Assembleia de Deus, disse que o episódio torna insustentável a relação. "Não vejo como nossas igrejas caminharem juntas depois disso."

domingo, 12 de setembro de 2010

Elio Gaspari: Para não esquecer que a quebra de sigilo na Receita não é atual

Para a história da deposição de Fernando Collor: em 1992, durante os trabalhos da CPI que investigava a quadrilha de Paulo Cesar Farias, os deputados trabalharam todo o tempo com uma declaração de bens do tesoureiro do presidente surrupiada por petistas, que a extraíram do banco de dados da Receita Federal. Ao apagar das luzes da CPI os doutores perceberam que trabalharam em cima de um ilícito. Só então um parlamentar foi ao Ministério da Fazenda com um ofício capaz de disfarçar a malfeitoria, obtendo um documento legítimo. A história se repete ou somos nós que temos fraca memória?

domingo, 5 de setembro de 2010

Os controles da Justiça Eleitoral são falhos?

Janio de Freitas revela, em seu artigo "Eleições Criminais", publicado pela FSP em 5/9/2010, um aspecto preocupante no caso da quebra ilegal do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato à Presidência, José Serra: Por que a Justiça Eleitoral demorou seis anos para indeferir o registro de filiação partidária por irregularidade? A filiação de Atella ao PT traz para o caso mais uma peça amorfa, sujeita a questionamento: a Justiça Eleitoral. Como é possível que só seis anos depois da filiação o Tribunal Regional Eleitoral-SP a tenha "excluído" por incorreção no registro?
No intervalo 2003-2009, houve eleições para prefeito, governo do Estado, presidente da República e ainda para vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores. Em São Paulo, a maior concentração da Justiça Eleitoral no país não sabia quais filiações partidárias eram corretas ou não? Logo, não seria estranho haver irregulares entre os candidatos e até entre os eleitos.
E quanto a Atella Ferreira, como e por que veio a saber da incorreção, afinal? Descoberta havida em momento tão propício para engrossar o caso, dois meses depois da quebra do sigilo de Verônica Serra em que é coautor, com o próprio nome a indicá-lo na fraude. A Justiça Eleitoral deve explicações.

A peneira da Receita - Duas versões

Duas visões foram apresentadas na FSP de hoje, 5/9/2010, sobre o vazamento de dados fiscais no âmbito da Receita Federal. Uma se refere ao aparelhamento da instituição pelo governo; outra, pela influência de um ex-secretário do órgão. Aparentemente opostas, as leituras são complementares. Não há uma lógica de Fisco ou um propósito estritamente estatal ou coletivo, mas um domínio de interesses privados na condução dos assuntos.
ELIO GASPARI - Criaram o comissariado da Receita O CONTROLE DA RECEITA Federal pelo comissariado do Planalto ficou exposto quando o repórter Leandro Colon descobriu que, durante 28 horas, o Ministério da Fazenda e os companheiros do fisco sustentaram que as declarações de Imposto de Renda da filha de José Serra haviam sido solicitadas por ela. Desde as 13h42 de terça-feira, a Corregedoria sabia que o contador que apresentara a "procuração" da empresária tinha quatro CPFs. Enquanto puderam, omitiram esse fato, fazendo de bobos a quem lhes deu crédito.
As violações dos sigilos fiscais de tucanos revelaram que os controles da Receita são ineptos (as operadoras de cartão de crédito avisam ao freguês quando ocorrem transações esquisitas com seu plástico) e inimputáveis (um servidor passa suas senhas a outro e continua no emprego). Essa é a porta do supermercado, mostrada em junho pelo repórter Leonardo Souza.
Há outra, para os atacadistas. É a da centralização dos programas de fiscalizações. Até dezembro passado, esse serviço era capilar, e as delegacias da Receita, em torno de cem, planejavam suas fiscalizações. Com a portaria 3.324, alterada em junho pela 1.317, cada unidade deve mandar a lista de sua programação relacionada com grandes contribuintes a Brasília, de onde descerá outra, para ser cumprida. Nessa malha entram empresas com mais de R$ 20 milhões de faturamento ou folha superior a R$ 3 milhões e pessoas com renda anual acima RENATA LO PRETE - Painel
Não é... Há um buraco na narrativa segundo a qual a situação "casa da mãe Joana" da Receita Federal se deve ao aparelhamento promovido no órgão pelo PT.
...o que parece Para se viabilizar como substituto de Lina Vieira, uma das providências tomadas por Otacílio Cartaxo foi pedir a bênção de Everardo Maciel. Hoje, o poderoso secretário da era tucana tem gente sua instalada em postos-chave da Receita.
Exemplo desse estranhamento num órgão que deveria perseguir o bem comum é a recente notícia divulgada pelos jornais de que o Sargento César Rodrigues de Carvalho, lotado, até quase à véspera de ser preso, no gabinete da governadora Yeda Crusius (PSDB), tenha sistematicamente quebrado o sigilo fiscal de diversas autoridades gaúchas, inclusive do atual candidato ao governo, Tarso Genro.
Não bastasse isso, o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, a pretexto de reduzir o impacto do atentado de Antonio Carlos Atella ao sigilo e integridade da Receita, ainda é capaz de reconhecer sem maiores cuidados: "Vazamentos sempre ocorreram. Há anos atrás isso ocorria. A gente detecta, pune os responsáveis e muda o sistema. Infelizmente, os contraventores sempre acham outro meio de acessar as informações". Pequenos reparos: contraventores não, criminosos. E por meio de ou auxiliado por gente de dentro da própria Receita?
Que as investigações sejam conclusivas, para afastar essa nuvem escura sobre um órgão tão importante para os brasileiros.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Reportagens Provocantes: EM. Dinheiro doado a candidatos daria para construir 15 mil casas

Brasília – Quinze mil casas populares para abrigar 75 mil pessoas. É o que seria possível construir com o total de doações eleitorais já registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). São R$ 274 milhões, considerando todos os cargos em disputa, de presidente da República a deputado estadual. Desse total, os candidatos já gastaram R$ 162 milhões. A maior parte das despesas foi destinada à publicidade com material impresso, placas, estandartes e faixas. Esses gastos chegam a R$ 58 milhões, o que corresponde a 36% do total. Os impressos superaram até mesmo a produção de programas de rádio e televisão (23,7 milhões), considerada por especialistas como a maior despesa das campanhas. Na era virtual, os tradicionais comícios estão em baixa. Com as limitações impostas pela Lei Eleitoral, consumiram escassos R$ 642 mil em todo o país.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

A linguagem subliminar

Whenever you doubt my love, it loses some of its substance (L.D)
Quando menino, sentia uma especial atração por um livro de cabeceira de uma tia: O Corpo Fala. Escondido, li e reli o livro e outros do gênero que ela guardava na escrivaninha. Curiosamente, minha tia nunca foi exímia comunicadora. Boa professora de artes e talentosa com as tintas, não conseguiu fazer grandes amizades e, talvez o pior, extraviou-se no amor.
Por mais que aprendamos com os textos, a linguagem é sempre traiçoeira. Não importa se escrita ou gestual. A plena vigilância de quem fala não é garantia contra os seus deslizes. Entretanto, minha tia tinha razão na insistência. Há, por trás de nossa comunicação verbal, um diálogo subliminar que nos convence tanto ou mais do que as palavras.
Os marqueteiros eleitorais sabem bem disso. E procuram transformar seu produto eleitoral em sucesso de voto. A democracia, no passado, era a arte da oratória. Hoje é, dentre outras coisas, o mundo da imagem e dos sinais. Mas para um espectador atento, os atos-falhos são constantes.
Mãos e braços que desmentem a afirmação, expressões faciais que mostram desconfortos e distorções. O debate e entrevistas com os presidenciáveis são um repertório de exemplos dos esforços dos profissionais para conter seus produtos no catálogo dos mais vendidos, mas também dos descuidos da consciência e da vigilância dos candidatos.
É difícil, entretanto, saber o quanto esse discurso quase invisível aos nossos olhos influencia o resultado das eleições. Continuo a acreditar que convence os eleitores tanto ou mais do que um projeto programático bem feito. Se, por outro lado, tomar o exemplo da minha tia como referência, diria que pouco ou nada interfere.
Mas há um equívoco em minha conclusão. A solidão em que minha tia vive é o destino de muitos, se não de todos. Não é resultado do fracasso da comunicação. Falo dessa solidão que mora ao nosso lado como única companheira do nascimento à partida. Uma praga insolúvel da condição humana.
Não há como debitá-la ao desconhecimento da linguagem corporal ou psíquica. Nem evitá-la por seu pleno domínio. É um estado anímico irredutível a gesto ou palavra ou à multidão, solidão mais ontológica e absoluta. Talvez seja ela que esteja por trás de todo desentendimento como um projeto contrailuminista de vida: a autopreservação vem antes da alteridade; o egoísmo é mais forte do que o amor.
Noves fora o pessimismo existencial, é preciso assistir aos debates políticos à procura das reais intenções dos candidatos. Quem sabe a vida pública não seja diferente da vida privada. O discurso antecipe a ação e a mudança. O corpo fala e nem sempre a mente atrapalha. A felicidade pública talvez nos espere adiante, marketing político à parte.
Temos que insistir na busca, até mesmo do projeto de felicidade pessoal, pois como disse Ashley Hodgeson a repetir milhões de vozes, fortes não são os que vencem, mas os que não desistem quando são derrotados.