terça-feira, 11 de agosto de 2009

O Retorno de Macbeth

É Lady Macbeth, que fala para o marido: “teu rosto meu barão, é um livro em que os homens podem ler estranhas coisas...”. O marido é Macbeth, personagem de Shakespeare, um barão medieval que três bruxas prognosticam com futuro rei da Escócia! Macbeth é picado pela serpente da ambição e junto com a esposa mata o gentil rei Duncan, toma posse do trono e torna-se um tirano destruindo a paz de seu reino e de seus súditos. As Bruxas já tinham predito que ele, “viverá como um maldito” já que vendeu sua alma para elas. Macbeth não está satisfeito já que as bruxas disseram que ele não geraria herdeiros, daí sai destruindo tudo ao seu redor.
Torna-se um perverso, um sujeito que: “as múltiplas vilanias da natureza enxameam nele”. Um de seus primeiros alvos é Banquo, que as bruxas apontaram como futuro pai de reis. Macbeth manda assassinar Banquo, mas seu filho, Fleance consegue escapar. A fuga de Fleance não permite que Macbeth descanse.Um dos assassinos já tinha dito: “sou um homem, meu suserano, a quem os golpes vis e os maus tratos do mundo exasperaram tanto que estou disposto a tudo para ofendê-lo”. Na realidade o assassino está retratando o espírito do tirano. Seus desatinos continuam, e os filhos de Duncam começam a juntar forças para tirá-lo do trono. Para piorar, sua esposa enlouquece e comete suicídio. Com o controle da situação fugindo dele, pronuncia frases que nos inspiram pavor: “De tal modo estou mergulhado no sangue”. ”Saciai-me de horrores! A desolação, familiar a meus pensamentos de morte, já não produz em mim qualquer emoção...”.
Uma batalha se aproxima, os nobres partem para expulsá-lo do trono. Durante a luta, ele achando-se invencível por estar protegido por bruxarias, encara o velho guerreiro Siward, que ao ouvir o nome Macbeth, proclama: “nem o próprio demônio poderia pronunciar um nome mais odioso aos meus ouvidos”. Mas, Macbeth se declara um “homem ousado que tem coragem para olhar na cara o que poderia fazer para empalidecer o demônio”. A líder das bruxas vendo que seu império do mal está desmoronando, prognostica mais uma vez: “ele desprezará o destino, desafiará a morte e terá esperanças acima da sabedoria, da piedade e do temor”. É uma tragédia de horrores, essa de Shakespeare: bruxaria, assassinato, suicídio, tirania, demônio e etc. É muita imaginação do Bardo inglês. Isso existe na vida real? Eu pergunto a todos vocês, vistes os olhos de Collor de Mello – sentado em sua poltrona no senado - quando agredia o senador Pedro Simon? O sujeito bufava, não piscava os olhos, parecia drogado ou mesmo tomado por um espírito maligno. Algum tipo de droga o dominava. Comportava-se como um alucinado que perdeu sua alma. Igual a Macbeth quando retorna da caverna das três harpias.
Lembremo-nos de seu governo e de toda a tragédia que aconteceu depois! Incluindo mesmo magia negra. Pedro Simon confessou-se apavorado com aquele olhar. Um olhar que o Brasil conheceu e que tantos e abomináveis sofrimentos lhe trouxe. Um consolo nos resta. Quando Macbeth matou Duncan, uma voz do além disse para ele: “Nunca mais dormirás! Macbeth assassinou o sono”. A cara de Collor de Mello é de quem nunca mais dormiu! Collor assassinou o sono! Isso nos conforta!
Postado por Theófilo Silva, presidente da Sociedade Shakespeare de Brasília e colaborador da Rádio do Moreno.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pensamentos obtusos: O poder em Nietzche

O poder em Nietzsche admite, pelo menos, duas leituras. Uma tradicional (a do darwinismo social), outra heideggeriana ou construtiva. A primeira o identifica com a dominação da vontade alheia (princípio psicológico e humano) ou de todas as formas de existência (elemento evolutivo vital de Gaia Ciência, ou cosmológico - de todo universo físico no “eterno retorno”).
O poder seria, como princípio humano ou universal, o estímulo ou a energia propulsora do existir. Tão forte que levaria o indivíduo a colocar em risco a própria vida para obter mais poder. Logo, seria mais forte do que a vontade de (sobre)viver, defendida por Schopenhauer. A vontade de poder (Wille zur Macht) estaria por trás da piedade como da impiedade, do senhor e do servo, do ascético e espiritual como do vaidoso e materialista. Seria o impulso da vida individual e da vida coletiva:
"Mesmo num corpo em que os indivíduos se tratam como iguais [como numa aristocracia plena e ativa] (...) está presente a encarnação da vontade de poder, que haverá de crescer, de expandir-se, de atrair, de tornar-se predominante - não em função de ser moral ou imoral, mas porque é viver e porque a vida é simplesmente a vontade de poder." (Beyond Good and Evil. Trad. H. Simmem. Whitefish: Kessinger Pub., 200?, p. 117).
O impulso socializante seria, portanto, de domínio unilateral (o prazer é filho do poder - Léon Dumont) ou de ser dominado (o dominado acredita que domina o dominador) ou de condomínio, se houver equilíbrio de forças sociais: "Estas então conspirarão em conjunto pelo poder. E o processo [de expansão da vontade] continuará"(The Will to Power. Trad. W. Kaufmann; R. J. Hollingdale. London: Weidenfeld and Nicolson, 1968, 636).
O poder seria pai e herdeiro da violência, da força, da dominação. Para Nietzsche, não haveria uma justiça em si mesmo considerada assim como nenhuma injúria, exploração ou destruição poderia ser definida como intrinsecamente injusta, pela razão simples de que a própria vida atuaria, em suas funções básicas, recorrendo a tais "violências".
Mas essa observação não poderia induzir o pensamento de que tudo haveria de ser sempre assim. "Artificial e excepcionalmente", o processo poderia sofrer uma interrupção com vistas à criação de uma unidade de poder maior. É nesse ponto da discussão nietzscheana que surge uma "teoria do estado" como uma exceção ao curso da vida biológica:
"Uma ordem legal pensada como soberana e geral, não para ser o espaço de lutas entre complexos de poder, mas como instrumento de contra a luta mesma, segundo o cliché comunista de Dührig, onde toda vontade deve considerar toda outra vontade com igual, seria um princípio hostil à vida, um agente de dissolução e de destruição do homem, uma tentativa de assassinar o futuro do homem, um sinal de fraqueza, um secreto caminho para a insignificância". (On the Genealogy of Morality. Trad. Douglas Smith. Clarendon: Oxford University Press, 1996, p. 57).
Essa leitura que, curiosamente, baseia-se num evolucionismo alternativo ao de Darwin (do princípio de competição e sobrevevência adaptativa no âmbito celular de Wilhelm Roux; da perfeição de Karl Wilhelm von Nägeli, a defender que evolução se dá no sentido de obtenção da complexidade orgânica, e da insaciabilidade da vida de William Rolph, a exigir absorção do entorno e sua transformação evolutiva) tem servido de argumento a favor do darwinismo social e foi usado como justificativa da supremacia ariana pelos nazistas.
Um exemplo sempre lembrado é o de Alfred Baeumler, um dos maiores (senão o maior) ideólogo de Hitler, que, embora negasse encontrar uma teoria do estado nazi expressamente em Nietzsche, localizava em seu texto todos os fundamentos (até premonitórios, ele dizia) da superioridade alemã. Para a defesa dessa superioridade, a Alemanha não haveria de valer-se nem da concepção hegeliana de Estado como entidade moral, nem da visão tímida e católica de Bismarck:
"Diante de seus [de Nietzsche] olhos, impunha-se a tarefa de nossa raça: a de ser líder da Europa". A razão lhe parecia simples: "O que seria a Europa sem a Alemanha [especialmente a do Norte]? Uma colônia romana. [Logo], os alemães tinham que escolher entre existir como um poder antirromano da Europa ou não existir". O destino seria a grandeza da nação "sob o espírito de Nietzsche e da Grande Guerra." (Nietzsche, der Philosoph und Politiker. Leipzig: Reclam, 1931, p. 180, 181, 183).
Segundo Heidegger, entretanto, Nietzche não tinha em mente o estabelecimento de um poder político ou a força bruta de opressão de homens sobre outros homens, ao falar de "Wille zur Macht". Não se deveria confundir, portanto, poder com a disposição do corpo ou da mente alheia. Sua definição estaria longe do desejo de dominação ou da prevalência do mais forte. Seria antes a qualidade de domínio da própria paixão e da vontade pelo "espírito livre", mesmo contra os costumes, ou, em outras palavras, o autocontrole que possibilitaria a criação da arte e da filosofia, campos da férteis da felicidade.
Há a favor da interpretação de Heidegger algumas passagens interessantes de Nietzsche. Em Human, All Too Human (Trad. M. Faber. University of Nebraska Press, 1984), por exemplo, ele critica o darwinismo social e o valor da lei do mais forte:
"Todo progresso do todo deve ser precedido por uma enfraquecimento de partes. As formas mais fortes retêm o tipo, o mais fraco ajuda-os a evoluir [É precisamente a natureza mais fraca, como a mais delicada e livre, que faz possível o progresso]. Algo similar também ocorre com o indivíduo. Raramente se verifica uma degeneração, uma truncagem ou mesmo um vício ou uma perda moral ou física sem importar uma vantagem em algum lugar (...). O cego verá mais profundamente seu interior e certamente ouvirá melhor. Portanto, a famosa teoria de sobrevivência do mais adaptado não poder ser defendida como único ponto-de-vista que explique o fortalecimento de um homem ou de uma raça"(p. 138-139).

Pensamentos obtusos: O mundo segundo o demônio (de Bernard Shaw)

Disse o Demo a Don Juan: "os homens se cansam de tudo, do paraíso não menos do que do inferno; e toda história não passa de um registro de oscilações do mundo entre esses dois extremos. Uma época não é mais do que um balanço do pêndulo; e cada geração pensa que o mundo está progredindo porque ele está sempre em movimento." Bernard Shaw. Man and Superman. London: Penguin, 2000, p. 168

Pensamentos obtusos: O governo segundo Madison

"Mas o que é o governo senão a maior de todas as reflexões sobre a natureza humana? Se os homens fossem anjos, não seria necessário governo algum. Se os anjos governassem os homens, nenhum controle interno ou externo seria necessário. Na instituição de um governo, que é a administração de homens sobre homens, a maior dificuldade reside nisto: deve-se primeiro capacitar o governo para controlar o governado; e, em seguida, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo. A dependência ao povo é, sem dúvida, o controle primário do governo; mas a experiência tem ensinado à humanidade a necessidade de precauções auxiliares [como o sistema constitucional de freios e contrapesos].”

Pensamentos obtusos: O homem segundo Fromm

“As mais belas e as mais feias inclinações do homem não são parte de uma natureza humana imutável e definida biologicamente, mas o resultado de um processo social que cria o homem. (...). A natureza do homem, suas paixões e ansiedades são produtos culturais”. Erich Fromm. The Fear of Freedom. London: Ark Paperbacks, 1984, p. 9

Pensamentos obtusos: O homem segundo Maquiavel

“É melhor ser amado que temido ou temido que amado? Responde-se que deveria o ser um e outro; mas, como é difícil reuni-los, é muito mais seguro ser temido do que amado, se faltar um dos dois. Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, voltam-te as costas. (...). Os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer, pois a amizade é mantida por um vínculo de obrigação que, por serem os homens maus, é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha; mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona.”
Nicolau Maquiavel. Il Principe. Itália, 1814, cap. XVII (De crudelitate et pietate; et an sit melius amari quam timeri, vel e contra), p. 46-47

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Papo de boteco: cinco sentidos e seus destinos

Quem tem boca vai a Roma; nariz, nem tanto vai. Quem tem olhos vê Paris ou Rio e seus murais. Mas quem tem ouvido vai a Viena, se carecer é uma pena. E o paladar? A Nova Iorque (se também quer comprar), São Paulo também, vá lá! Quem tem tato vai pra Haia, quem não tem vai pra Xerém.
Danado é ter os sentidos todos e nada disso suceder. Só pode ser coisa do demo, da falta de dinheiro ou de padrinho pra socorrer. Então reza: valei-me Nossa Senhora e Jesus Miudinho, pois quem sabe te arranjem algum pelo caminho. Não me peça promissória, é só um taco de história, por tudo, por ti, por mim, amém.