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domingo, 10 de junho de 2012

Ranhuras na identidade europeia

Com crise na Grécia, está em jogo a identidade da Europa. Questionados se a Grécia deveria ir à falência em vez de se submeter a mais medidas de austeridade, muitos dizem já viver uma falência. A reportagem é de Maria Margaronis e publicada pelo The Guardian e reproduzida pelo jornal Folha de S. Paulo, 13-02-2012. 

A seis centímetros do escudo policial para conter o tumulto do lado de fora do Parlamento grego na última sexta-feira, um rapaz alto, pálido, gritava com um homem que poderia ser seu tio. "É a sua geração que nos trouxe a este ponto, mas é a minha que vai ter de pagar. Vocês têm que se responsabilizar pelo que está acontecendo", bradava. Enquanto escrevo, o Parlamento grego se prepara para votar o acordo com os credores privados do país e um novo acerto com a União Europeia e o FMI. Eles vão emprestar ao país € 130 bilhões em troca de cortes que esfolam os últimos pedaços de carne da economia grega - incluindo uma redução de 22% no salário mínimo e 150 mil cortes de empregos públicos até 2015. 

Sem o acordo, a Grécia vai à falência em março; com a qual o país deve afundar em uma depressão profunda sem luz no fim do túnel. Quando se pergunta a pessoas nas ruas se a Grécia deveria ir à falência em vez de se submeter a mais medidas de austeridade, muitos dizem já viver uma falência, que os servidores públicos não recebem salários há meses e hospitais não têm suprimentos. Por que, então, ampla parcela da elite grega se apega tão fortemente à fantasia de que um novo empréstimo pode "salvar" o país? A resposta óbvia é que o calote é um buraco negro e um risco enorme. 

A outra é que a safra atual de políticos construiu suas carreiras no sistema que está em colapso, baseado em oligarquias, clientelismo e corrupção e que não fez as reformas que poderiam ter revivido a economia grega e sua democracia. As razões mais profundas, porém, podem ser culturais e políticas. A crise intensificou velhas rixas da sociedade. Fazem-se paralelos históricos. Tanto a esquerda quanto a direita falam de uma nova ocupação alemã -referência compreensível dado que a Alemanha está dando as cartas agora, mas algo que pode cair no racismo. 

Para o centro liberal, a Europa ainda é o coração da Grécia, o único garantidor do capitalismo liberal, dos direitos humanos e da democracia. O problema com as metáforas históricas é que elas podem obscurecer o presente: o que está em jogo aqui não é a identidade da Grécia, mas a da Europa. Todos os olhos estão fixos em Atenas, mas o caminho para fora da crise exige uma escolha sobre que tipo de Europa queremos. A que temos agora, com suas profundas desigualdades estruturais e sua rígida ideologia econômica, não protege nem a democracia nem os direitos humanos. Punitiva e linha-dura, prefere comer seus filhos.

Fonte: IHU/Unisinos

domingo, 4 de setembro de 2011

Corrupção faz Brasil perder o equivalente a uma Bolívia

Pelo menos o valor equivalente à economia da Bolívia foi desviado dos cofres do governo federal em sete anos, de 2002 a 2008, informa reportagem de Mariana Carneiro, publicada na Folha deste domingo, 4/9/2011.

Cálculo feito a partir de informações de órgãos públicos de controle mostra que R$ 40 bilhões foram perdidos com a corrupção no período --média de R$ 6 bilhões por ano, dinheiro que deixou de ser aplicado na provisão de serviços públicos.

Com esse volume de recursos seria possível elevar em 23% o número de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família --hoje quase 13 milhões. Ou ainda reduzir à metade o número de casas sem saneamento --no total, cerca de 25 milhões de moradias.

O montante apurado faz com que escândalos políticos de grande repercussão pareçam pequenos.
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domingo, 20 de fevereiro de 2011

O capitalismo 4.0 de Kaletsky

Em seu livro "Capitalism 4.0. The Birth of a New Economy in the Aftermath of Crisis[Capitalismo 4.0. O Nascimento de uma Nova Economia depois da Crise], o economista russo, radicado na Inglaterra, Anatole Kaletsky analisa a crise econômica entre 2008 e 2010 no ciclo das crises do capitalismo. O sistema econômico esteve à beira do colapso no final do século XIX, nos anos 1930 e na década de 1970. No momento atual, vive uma transição para uma nova etapa: o “capitalismo 4.0”.

Em cada uma das versões anteriores, o capitalismo sofreu alterações especialmente na articulação entre o poder econômico, cujas decisões se baseiam do voto do lucro ou dinheiro, e no poder político, assentado no voto dos cidadãos.

Se, durante o século XIX, essa interações eram negligenciadas, limitando-se ao custeio privado do aparato militar e à defesa de leis que beneficiassem o mercado, nos anos 1930 tornaram-se visíveis seus efeitos e causas, estigmatizando o mercado. A terceira etapa, desencadeada pela dupla Margareth Thatcher e Ronald Reagan, estigmatizou, por sua vez, o Estado.

O cenário agora é outro. Diferente dos credos liberais e sociais, a quarta geração do capitalismo tem de conviver com a contingência e falibilidade dos mercados e dos governos. E com a necessidade de uma interação mais sistemática e transparente entre eles. A crise atual levou a credibilidade dos dois à lona, assim como suas perspectivas unilaterais.

O novo capitalismo deve contar com mais e menos Estado. Mais Estado em áreas que não se limitam apenas ao controle da inflação ou à política fiscal. É preciso que os governos adotem uma sólida gestão macroeconômica, promovendo o crescimento e o emprego. A mistura revela um keynesianismo sem Keynes.

Menos Estado, porém, no âmbito das políticas sociais. Os sistemas previdenciários como hoje existem e as demandas por serviços cada vez mais sofisticados de saúde e educação requerem uma nova distribuição de papeis. O Estado não pode se ausentar desses campos, mas não deve agir como único fornecedor de serviços. Antes deve estabelecer relações de parceria com o setor privado, induzindo consensos.

No campo da educação, por exemplo, deve dar prioridade ao ensino fundamental e médio, sem negligenciar o acesso aos cursos universitários. As escolas não devem ser públicas, mas estimuladas pelo poder público a adotar políticas de qualidade e de inclusão social. Esse é o desafio da área: ser inventiva e responsável sem gerar exclusão social. Admite, por exemplo, que o governo pague bolsas de estudo para os estudantes carentes.

Na saúde, o problema é ainda maior. Argumenta que a alternativa deve estar entre a mercantilização da saúde, ao estilo norte-americano, e a sua consideração como bem público, como sucede na Inglaterra. Outra vez, as relações entre mercados e governos devem ser rediscutidas sem uso de estereótipos e maniqueísmos.

Os políticos têm de conduzir-se pela ética, inclusive nas eleições, pondo, por exemplo, claramente aos eleitores as alternativas disponíveis e a crise por que passam os gastos públicos. O objetivo é obter consensos ou, quando menos, aceitação de uma dura realidade: aumento de tributos e diminuição de benefícios sociais. A experimentação ousada e persistente deve ser a tônica dessas relações.

O problema está nesse ponto: como ser ousado e responsável ao mesmo tempo. E como possibilitar que a lógica do mercado e a lógica da política consigam conviver de modo respeitoso. Mais que conviver, ajudar-se mutuamente. Mercados e governos não podem ser parasitas uns dos outros, mas parceiros de um mesmo futuro. Fáceis palavras, difícil execução.

Um novo capitalismo? O manifesto de Haque

Umair Haque parece ser mais um daqueles utópicos. Acredita em justiça social e capitalismo. Não o velho e industrial capitalismo, mas um sistema econômico mais afinado com a sustentabilidade socioambiental e com a distribuição de riquezas. Será possível? Lei a entrevista que deu a Mariana Schreiber, publicada hoje pela Folha de S. Paulo.
O capitalismo está em uma encruzilhada e precisa de reformas profundas para que possa sobreviver. É o que defende o economista norte-americano e colaborador da "Harvard Business Review" Umair Haque, 34, no recém-lançado livro "The New Capitalist Manifesto" (O Novo Manifesto Capitalista) -que ele próprio define como "um manual" para um futuro melhor.
Para Haque, as empresas que terão êxito no século 21 serão capitalistas construtivos -companhias que não causam danos à sociedade, não geram resíduos, desenvolvem produtos a partir da demanda dos consumidores e vendem itens de alta necessidade e baixo custo.
Nenhuma empresa alcançou esse status ainda, afirma, mas algumas já deram os primeiros passos.
Para Haque, a crise de 2008 foi apenas um exemplo do grande desequilíbrio do sistema. Segundo o economista, a absoluta maioria dos governos e empresas continua agarrada aos princípios da era industrial, buscando "extrair valor" -das pessoas, da natureza- em vez de "produzir valor".
Disso resulta um "crescimento estúpido" que, na sua visão, pode ser ilustrado pela recuperação do lucro das empresas nos EUA, apesar de o desemprego permanecer alto e a renda, estagnada.
Veja exemplos no quadro ao lado e confira a entrevista concedida por e-mail.
Folha - O senhor afirma que o capitalismo está numa encruzilhada. Há alguma relação com a crise de 2008?
Umair Haque - A crise de 2008 foi grande e histórica, mas há uma crise subjacente mais profunda. O crescimento global tem desacelerado há décadas, sugerindo que o modelo da era industrial, fortemente dependente da agressão à natureza, ao futuro, à sociedade e às comunidades, está perdendo força.
O problema mais profundo é este: as instituições da era industrial subcontabilizaram os custos reais e supercontabilizaram os benefícios reais. É o que eu chamo de Grande Desequilíbrio -não um evento transitório, como a Grande Depressão, mas uma falha subjacente, fincada no coração do capitalismo, que limita sua capacidade de gerar prosperidade duradoura e compartilhada.
Por favor, explique o conceito "thick value" (valor espesso).
"Thin value" (valor magro) é o que as instituições da era industrial criam: valor que é insustentável e artificial. Hoje, por exemplo, Andy Haldane, diretor-executivo do banco central inglês, diz que os bancos criaram pouco ou nenhum valor real na última década, pois o custo para resgatá-los se igualou ou ultrapassou seus lucros ao longo da década.
"Thick value", em contraste, é o valor que é sustentável e significativo. É o valor real, ganho por meio de benefícios que perduram e se multiplicam. Criá-lo, é claro, não é fácil -é o grande desafio desta década e, talvez, do século.
Qual é o papel da internet na "criação de valor"?
A internet e as redes sociais tornam mais visível, de forma imediata, quando e onde o valor real está sendo criado e onde está apenas sendo extraído. Eles permitem que as pessoas se auto-organizem e se revoltem contra o valor extraído delas.
Quando vimos isso recentemente? No Egito, onde, depois de décadas de extração de valor, jovens marginalizados utilizaram o Facebook e o Twitter para fazer o impensável: em três semanas, derrubar uma ditadura férrea.
Os protestos no Egito começaram com um único homem na Tunísia, um vendedor de frutas tão desesperado que colocou fogo em si mesmo. Parece que hoje uma única voz pode ser amplificada para o berro de milhões de pessoas, que podem mudar o mundo. É um nova ameaça -e uma grande ameaça.
Existem empresas totalmente construtivas hoje?
A maioria das empresas radicalmente inovadoras está apenas dando os primeiros passos para o capitalismo construtivo. Hoje -numa época de estagnação- dar pequenos passos construtivos já é um ato perturbador.
Quão veloz é essa evolução?
Depende. Alguns países podem ser deixados para trás. Por exemplo, os EUA estão se contorcendo, pois protegem ferozmente as indústrias do passado. Alguns já estão avançando, como a Índia, que anunciou planos de incluir custos ambientais no cálculo do PIB, um movimento que remodela incentivos em toda a economia.
E as start-ups (empresas inovadoras, de forte expansão)?
O Vale do Silício não está produzindo muitas start-ups construtivas, mas start-ups que obedecem princípios da era industrial. Os investidores ainda pensam em termos de tecnologia, em vez de novas bases institucionais.
A economia americana está em recuperação?
Os EUA estão se recuperando só em termos de crescimento estúpido. Exemplo perfeito: o PIB está aumentando, e os lucros corporativos estão em níveis recordes, mas há um desemprego crônico, os salários estão estagnados. Em praticamente qualquer dimensão que importa para os seres humanos, a recuperação é uma ilusão.

Reduziu a desigualdade no Brasil?

Para Clóvis Rossi, em Mais uma lenda ameaçada, não. Leia
Era uma vez a lenda da queda da desigualdade no Brasil, já desmontada.
Agora, todo mundo sabe que o que caiu foi a desigualdade entre salários, mas não entre a renda do capital e a do trabalho.
E esta é a desigualdade de fato obscena.
Muito bem. Agora, surgem dados que põem em dúvida até a queda tão celebrada da desigualdade entre assalariados. São dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), organismo oficial e bastante empenhado, de resto, na propaganda do governo.
O que diz o estudo?
Que o desemprego aumentou entre os 10% mais pobres no período 2005-2010. Exatamente o período em que tanta gente se ufanava de que a desigualdade diminuíra.
Vejamos a comparação: em 2005, 23,1% da população mais pobre estava desempregada. No ano passado, esse número saltou para 33,3%. Já entre a parcela da população de maior poder aquisitivo, o desemprego diminuiu 57,1% nesses cinco anos. Caiu de 2,1% para 0,9%.
Mais: o desemprego entre os mais pobres, que era 11 vezes maior em 2005, pulou para 37 vezes mais cinco anos depois.
A notícia colhida nesta Folha acrescenta a palavra de técnicos do Ipea: "A taxa de desemprego, que tende a ser mais elevada entre os trabalhadores de menor rendimento, tornou-se ainda mais um elemento de maior desigualdade no mercado de trabalho".
Se os mais pobres perdem emprego e, portanto, renda, e os mais ricos, ao contrário, obtêm mais empregos e, portanto, mais renda, como é possível que a desigualdade entre assalariados caia?
Deve haver alguma boa explicação, dada a qualidade técnica dos arautos da lenda, mas seria conveniente que eles viessem a público para explicar essa contradição aparentemente insanável, em vez de silenciarem como o fazem quando se aponta a outra lenda.

Um novo capitalismo? Indústria thick value e indústria thin value

Defensor de um novo capitalismo, baseado no desenvolvimento sustentável e na igualdade, Umair Haque esteve no Brasil no TEDxSP. Assista à sua palestra.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Independência do Banco Central para Quem?

Artigo publicado no Constitutional Law Blog, sob o título Fed Independence, Fed Capture, a respeito da independência do Banco Central americano. As reflexões valem também para cá

"Será que o Federal Reserve faria melhor se largasse a sua independência e se tornasse (novamente) mais responsável perante os agentes estatais eleitos? Timothy Canova discute essa questão na The American Prospect Review. Ele conclui que o período de prestação de contas do Fed durante a década de 1940, sob a Presidência de Marriner Eccles, resultou em muito mais sucesso e coordenação da política monetária, independente do setor financeiro.

Casanova escreve que, durante esse período mais responsável, mas transparente e "socialmente neutro", o Fed trabalho em parceria com o Instituto de Administração de Preços (Office of Price Administration) para controlar os gastos do Congresso e as prioridades de financiamento (e não, como agora, para servir aos interesses do setor financeiro a exemplo da recente compra dos seus ativos tóxicos). Como resultado, as taxas de juros não subiram, embora os gastos federais e empréstimos fossem muito maiores do que hoje (em percentagem do PIB). Por quê? Porque, argumenta Canova, o Fed comprou títulos do governo "em quantidade e preço necessários para manter enquadrada a taxa de juros do Tesouro." Resultado: Uma política monetária do Fed que acomodava a política fiscal do Congresso que efetivamente tirou o país da Grande Depressão.

Canova sugere que a independência do Fed em 1951 abriu espaço para a captação do setor financeiro, uma conclusão apoiada por um relatório no mês passado da Reuters intitulado Cozying up to Big Investors at Club Fed. Segundo a reportagem da Reuters, há uma porta-giratória rápida entre o Fed e do setor financeiro que permite muitas vezes um "fluxo de informações de parte a parte e uma baixa de guarda do agentes do Fed com seus ex-colegas e outros contatos próximos do setor privado."

Canova conclui sua obra com este parágrafo:

"Poucos economistas entendem esse período da história do Federal Reserve, que tem sido retirado da maioria dos textos, incluindo livros didáticos de economia como os de Bernanke. Quando o período de Eccles é discutido, costuma ser é julgado como uma anomalia - que infelizmente o foi. A opinião corrente é a de um banco central capturado por interesses financeiros privados, que está perseguindo uma agenda elitista da desregulamentação e austeridade fiscal com salvamentos e bônus para banqueiros. Mas, como mostra a própria história de nossa nação, num dos melhores momentos dos Estados Unidos, ele não se conduziu dessa maneira."